
Querida Mãe,
E quanto mais textos recebi mais difícil foi ficando e continua… daí esta lenga-lenga.
Se começar do princípio, calculo que aos 4 anos já quisesse ser Mãe por tua causa, como tu o quiseste ser à imagem da tua. Depois, nem sei a que altura do campeonato, proibi-te de morrer. Pelo meio ficam muitas memórias, muitas partilhas, vitórias e derrotas, lágrimas de riso e não só!
De Moçambique guardo lembranças de vários tipos, provavelmente embelezadas pela distância poética da tenra idade. Muitas serão de te ouvir contar as histórias, mas ainda tenho umas quantas minhas:
- Lembro-me de brincar com uma boneca num barco velho, quando ia contigo para o trabalho… de espreitar ao microscópio e abrir ratinhos e dissecar rãs (não eu, claro). E de brincar às “secretárias” na máquina de escrever (bem antiga, de fita e tudo) e com a respectiva massa de limpar as teclas. Daqui ficou o “germe dos cientistas”.
- Não podia deixar de mencionar uma célebre excursão nocturna de barco, para recolherem sei lá que espécies de peixinhos do rio Zambeze, que para a idade que tinha foi mais excitante que navegar no Amazonas…
- Posso ainda recordar esse Evento Social digno de colunas VIP, que foi um batizado de bonecas , com direito a lanche e etiqueta apropriada J
- De resto, guardo ainda de cor as músicas que cantavas para dormirmos, os desenhos pintados no nosso quarto (especialmente a minha atração por uma lata de tinta azul, esta história sim, contada por ti) e as palmadas que levei pelas minhas ideias malvadas, como cortar as flores bordadas numa blusa tua (maldades que iriam perseguir a Sónia por longos anos, mas que ficam para os 60 dela…).
Tenho muitas recordações de Moçambique, felizmente! E digo isto com orgulho, porque sei que os meus 60 anos estarão cheios de Portugal, mas em mim estará sempre uma Moçambicana, como vaticinado pelo Papá Samora ;)
Sei o hino de cor, lembro-me vagamente dos “Viva a Frelimo” em manifs… e, embora “misturada”, no meu sangue corre sempre o apelo de África. Não é à toa que peço Terra de Moçambique, mas ninguém me leva a sério!
Portugal não teve um começo fácil, nem nos acolheu de braços abertos e calorosos, como os da nossa Terra. Sem empregos, sem dinheiro e com poucos amigos, mas daqueles mesmo bons, dos que continuavam lá e dos que vieram também em fuga… lá sobrevivemos como pudemos! Com muito sufoco, com gritos e saudades que até doíam, mas juntas.
Ficaste com malária daquela brava, que nem abrias os olhos! E, pela primeira vez em muitas, fui a tua mãe e da Sónia. Enfiava-te copos de leite, alimentei-nos às duas a fiambre e ovos mexidos, sem nunca faltarmos às escola… já era precoce e responsável. O pai estava longe e eu aguentei o barco, porque a Força também se herda.
Dessa “fossa” surgiu a Clara e os filhos, e um emprego para ti arranjado pelo Rui. Mais uma vez também tive direito a umas visitas ao teu mundo laboral. E nesta altura começou a fazer-se luz e a voltarem os sorrisos e as brincadeiras. Com o pai na Líbia, começa nesta época a criar-se o “trio maravilha” que hoje somos nós 3!
Depois voltaram os momentos de PURA FELICIDADE a 4. As férias grandes, quando ainda eram mesmo grandes, na Líbia. Com direito a milhares de banhos de mangueira e tanque, inúmeras visualizações desse clássico da 7ª Arte, “GREASE”, pinturas murais, gatinhos e os primeiros bolos que fiz.
Lembro-me do verão em que tivemos 3 festas de anos, na escola, em Cascais e na Líbia. Além de estarmos de novo reunidos, tinha um saborzinho a África, embora completamente diferente.
Na “nossa casa” começámos criar novas raízes, ou melhor, sentimo-nos finalmente transplantadas (continuo a dizer que se devia ter trazido terra, naquela cresce-se melhor). Fizemos amigos, crescemos e virámos adolescentes, sempre contigo por perto.
Alinhaste sempre em todas as loucuras, desde slows na garagem até às 3 da manhã, passando por fogueiras de Santo António no jardim para saltarmos, até a tribunais de rapazes para esclarecer as dúvidas da adolescência. Foi aí que viraste “Tia” de tanta gente, mas não como as de Cascais… doutro tipo, daquelas que agora muitos se “atrevem”a adotar como “mãe emprestada”. Não posso queixar-me, fui a primeira filha, mas sei que depois da Sónia ainda cabem no teu ninho a Pat, a tua Ni e o Nuno. E as tuas asas sempre se esticaram para acolher todos os nossos amigos, namoricos e agora os genros (incluindo o Ricardo e Luís) e “nora” Ana Catarina.
Como primogénita, sei que o peso da herança é GIGANTE, mas também sei que a tarefa é amplamente partilhada por todos nós e, como tal, não pesa… Contigo aprendemos, rimos e chorámos, mas sobretudo crescemos a querer ser como tu!
Quando tudo estava encaminhado novamente, atingiu-nos um “anticiclone dos Açores”. Novo exílio, novas dificuldades de adaptação e durezas… agravadas por um clima capaz de criar bolor e embaciar qualquer alma solarenga! Mas que raio, alguém me perguntou se eu queria ter nascido Cigana? Parece que a alcunha estava a ganhar forma.
Depois de reconhecido o “terreno” começaram as saudades do Continente e as “choviam cartas”. Passadas as novidades turísticas foi tempo de começar o “trabalho”, escola para as 3. Mal ou bem, fomos fazendo amigos e estávamos os 4 juntos. Desta vez, lembro-me de poucas coisas (mau sinal…) mas sei que só começámos a gostar na “hora da despedida”.
No entanto, o melhor de tudo foi a MANELA, essa mana nova que ganhaste para a vida toda, e que tantos momentos inesquecíveis nos tem proporcionado. Mais uma vez, mesmo uma coisa má teve um resultado tão bom. Amo a Manelita como os meus amigos te amam a ti, por muitas razões (Quando faz ela 60? Estou a ficar pró nisto!).
De regresso, retomámos as aventuras no CAD. No colégio parece que ficou também uma larga parte desta história a 3. E à qual acrescentámos intermitentemente a Ni. Quantas guerras nossas separaste? Quantos TPC e testes estudaste ao nosso lado (ao meu com muita resistência minha)? Mais festas de anos no jardim, passeios, praia…
No colégio fizeste também muito sucesso como professora, como amiga e mãe. Mais uma vez os nossos amigos te escolheram para confidente, para companhia e diversão.
Não conheço outra Mãe como tu, e posso ser suspeita, mas estou descansada porque não somos só as filhas a dizê-lo!
Do CAD nunca sairemos… a saga continuou com os primos, continua com o Miguel e promete continuar por muitas gerações. Nem nós saímos nem o CAD nos sai do sangue. Tal como Moçambique, o CAD “é uma nação”, fica para toda a vida.
E do colégio fica também uma nova amiga, que hoje em dia já é uma amiga de longa data (velha nunca, jamais) e também é como se fosse da família: a tua / nossa Pombinha Zé! Das vossas loucuras falará ela, mas eu queria só dizer que espero que se mantenham juntas e loucas!
Dos tempos de Lusófona e Tuna, largaste-nos às feras e foste a tua vidinha… com justiça, porque estava na altura de sermos crescidas. Talvez te tenhamos dado uns quantos desgostos com as nossas guerras infantis, mas também criámos as asas que tanto nos querias legar! Dessas que acolhem o Migas, a criança que esperamos… as que virão e os amigos deles, que de espero acolher como tu fizeste com os nossos.
Contigo à distância, fizemos as loucuras e asneiras a que tínhamos direito, mas sabendo que eram sempre “com rede”… mesmo a km de distância sempre nos acompanhaste, aconselhaste e ajudaste, principalmente “deixando” que nos entendêssemos sozinhas, a nós próprias e uma à outra.
E mesmo assim, ainda tiveste direito a farras, noitadas com a Tuna e diretas a fazer trabalhos. Tal como eu, a mana Alex e o João, lembram os bolinhos que ias buscar cedinho para os nossos pequenos-almoços.
Apoiaste a minha ideia pouco razoável de viver com a Alex em Alcântara, apenas a 30km de casa, durante o estágio, assim como foi crucial a nossa ida ao Porto para decidir entre 2 cursos. Sei hoje, como sabia nessa altura, que essa decisão difícil significava 2 vidas diferentes… a que tenho hoje e no que isso me transformou, e a que poderia ter sido.
Decidi sozinha, como tinha que ser, mas estavas ao meu lado… não me arrependo de nada do que essa escolha me trouxe, nem do que se seguiu. E se foi atribulada, essa adolescência tardia que vivi. Mas apesar da minha espiral de auto-destruição que quase nos enlouqueceu às duas, afinal ainda sobrou alguma força dos genes e sobrevivemos! De todos os meus erros, este é o único do qual devo mesmo pedir desculpa, senão nem valia a pena escrever mais nada…
Os outros, maiores ou piores, foram os meus e que me ensinaram, tal como tu, a ser melhor e crescer. Sempre nos deste o direito à asneira, assim como, apesar do meu feitiozinho crítico e perfecionista, também sei que tens direito às tuas. Ah sim! Pensavas que eu conseguia fugir aos teus defeitos só porque fazes 60 e tal…? Nem pensar, ou isto também não era o meu testemunho, eheheh. Bem, se calhar vou evitar “borrar a pintura”, mas só porque apesar destes elogios todos, ninguém aqui tem ilusões de que sejas perfeita. Por isso ficamos assim!
Como tinha decidido tentar evitar os dramas, ficam uns quantos por mencionar em que voltei a ser a Mãe e tu a Filha a precisar de colo… como tu, sou Filha-Mamã, Tia-Mamã e Irmã-Mamã! Herdei de ti a qualidade de que mais gosto (eu e muita gente), a qualidade do COLO! E espero seguir com os teus exemplos de Mãe e Amiga e aprender com os erros que cometeste sem os repetir (mais vale experimentar uns novos, que dos teus eu já vi os resultados, né?)
Delirei com esta ideia da festa (outra qualidade tua que me passaste) e espero que alguém a herde no futuro, senão quem vai organizar os meus 60? Espero que vibres com cada segundinho do teu dia, como eu ao pensá-lo…
AMO-TE MUITO, daqui até ao infinito como diria o Migas!
Xana